O Grande Perdedor

A pesquisa do Datafolha/TV Globo divulgada na madrugada desta quinta-feira, 26, aponta a candidata do PT à Presidência da República, Dilma Rousseff, com 49% das intenções de voto, aumentando para 20 pontos sua vantagem sobre José Serra, do PSDB, que está com apenas 29%. O levantamento foi realizado nos dias 23 e 24 de agosto, com 10.948 entrevistas feitas em todo o Brasil. Com esse resultado, a candidata petista tem tudo para vencer a disputa no primeiro turno e, pode impor ao PSDB a sua maior derrota desde 1989, ano em que a candidatura de Mário Covas não foi nem para o segundo turno.


O resultado mostra também que a candidata petista passou em Estados em que Serra estava liderando, como São Paulo, Paraná e Rio Grande do Sul. Além disso, Dilma também tem a preferência entre os eleitores com maior faixa de renda. Com base nisso, podemos dizer que Dilma avançou até no terreno onde Serra era franco favorito e, que, dificilmente haverá uma reversão do quadro. A não ser que um fato novo surja e mude os rumos do cenário eleitoral, a tendência natural é a de uma vitória petista ainda no primeiro turno, para o desespero do comitê político tucano e, principalmente, para José Serra, para quem uma derrota pode significar uma grande perda de espaço interno no PSDB.


Os números de São Paulo, Estado onde Serra foi governador até abril e reduto em que o PSDB governa há 16 anos, apresentam Dilma Rousseff com 41%, na semana passada a adversária do tucano estava com 34%. José Serra caiu de 41%, para 36%. Já no Rio Grande do Sul, a candidata petista subiu de 35% para 43%, tucano caiu de 43%, para 39%. Em resumo, mesmo onde o PSDB tinha uma certa força a mais que a candidatura petista, Dilma conquistou o seu espaço e, cada vez mais a candidata do PT pode vislumbrar uma vitória que será histórica não apenas para os vencedores, mas também para os derrotados e, nesse caso em especial para José Serra que pode sair como o grande derrotado dessas eleições.


Os Rumos do PDT

No decorrer da propaganda eleitoral no rádio e TV, muita gente se surpreendeu com o apoio declarado por Cidinha Campos ao candidato a Senador pelo PMDB Jorge Picciani. O apoio da pedetista caiu como uma luva para Picciani, mas não parece ter sido tão bem aceito assim por aqueles que ainda enxergam no PDT a imagem de Brizola, que com certeza, estando vivo não permitiria um apoio desses. Muita gente ficou em dúvida sobre o que iria acontecer com o PDT depois que seu ícone fundador faleceu, mas o fato é que o partido sobreviveu, embora alguns embaraços políticos ainda possam ser notados. A nova cara do PDT é muito mais local do que nacionalmente unitária e, isso pode ser um entrave ao partido que não parece ter perdido, com a perda de Brizola, o projeto nacional que os unia.

 

O apoio de Cidinha Campos, deputada estadual pelo PDT à candidatura de Jorge Picciani não só surpreende, como assusta. Primeiro pelo fato de que a Deputada realiza um excelente trabalho à frente da Comissão de Defesa do Consumidor da ALERJ e, ter sobre si uma imagem íntegra que não condiz com o apoio a quem representa todo o atraso político que impera em nosso Estado. Em segundo lugar assusta pelo perfil da candidata, nada compatível com o perfil de Picciani. Enquanto Cidinha é do povo, Picciani representa todo o velho modelo político de domínio do interior e, definitivamente, tal qual o Governador Sérgio Cabral, não possui na ética o seu ponto mais forte.

 

As denúncias contra o Deputado Picciani são vagas, porém não investigadas. O patrimônio do candidato ao Senado cresceu, entre 96 e 2001 na faixa de 278%. O resultado da fiscalização do Ministério do Trabalho em cinco fazendas, entre elas a do presidente da Assembléia do Rio, Jorge Picciani, constatou trabalho escravo, maus-tratos a menores e abandono de empregados doentes. Apesar da gravidade da denúncia, a ALERJ não tomou providências e, pior, manteve o deputado peemedebista na presidência da casa. Um deputado com esse aumento patrimonial e acusações dessa gravidade nas costas não pode ser exemplo para ninguém e, o apoio que Cidinha Campos dá ao mesmo é contraditório para sua própria história.

 

O fato mais agravante do apoio de Cidinha é a maneira como ela o faz. Além de passar uma confiabilidade que Picciani não merece receber, Cidinha deixa claro que não o apóia apenas por um compromisso político. Em um primeiro momento avaliamos que, por apoiar Dilma Rousseff para Presidente, Cidinha estaria apoiando o candidato do PMDB em busca de uma bancada forte no Senado para apoiar a candidata petista, mas isso não é verdade, já que pelas palavras da própria deputada ela só vota em Picciani para o Senado. Não vota nem em Crivela e nem em Lindberg, mostrando que sua preocupação não é a bancada de apoio à Dilma, mas sim a eleição de alguém cuja questão ética é questionável.

 

É triste ver um partido como o PDT, tendo uma de suas maiores figuras públicas do Estado vestindo a camisa de alguém como Jorge Picciani. O PDT da educação, da preocupação com a infância e a juventude, representado pela figura de Cidinha Campos declara o apoio e pede votos para alguém que, em sua fazenda, tem indício de maus tratos a menores e trabalho escravo. Isso é absurdo! Picciani representa a velha política oligárquica que impera no interior do nosso estado e, é lamentável ver um partido que sempre se manteve do lado dos trabalhadores estar na linha de frente defendendo um oligarca.

 

Abre o olho PDT, abre o olho Cidinha Campos, Picciani representa tudo contra o que o velho Brizola lutou e, o equívoco político no qual se configura o apoio que vem sendo dado ao mesmo cria uma mancha que ficará para sempre marcada na história de uma das mais tradicionais legendas de nosso país. O PDT da educação, do trabalhador, da defesa da criança e do adolescente começa a dar espaço a um partido pautado pelo fisiologismo político que tanto combateu no passado. Ainda bem que Leonel de Moura Brizola não está mais entre nós para presenciar esta lastimável página da história do Partido Democrático Trabalhistas.


Juntos e Fora da Lei

O slogan da campanha do Governador Sérgio Cabral ‘Estamos Juntos’ realmente está ganhando as ruas da cidade, mas não estamos falando apenas dos números das pesquisas de opinião, estamos falando também de propaganda eleitoral irregular. Desde 2004 é proibida a fixação de galhardetes ou placas em vias públicas, mas nessa campanha eleitoral a coligação do candidato a Governador Sérgio Cabral, em material que conta também com a presença do Presidente Lula e da candidata Dilma Rousseff, ignora essa regra e, pior, em área de UPP.

 

Teoricamente pacificado, o Morro da Providência no centro da cidade é território livre para a prática irregular de propaganda irregular por parte da coligação do atual Governador Sérgio Cabral Filho. Além do surgimento de um programa social patrocinado pelo candidato Chiquinho da Mangueira, que dá aulas gratuitas de ginástica para moradores em uma quadra na comunidade, em pleno período eleitoral, os galhardetes tomaram as ruas da comunidade e, a polícia pacificadora do Governo do Estado nada faz para impedir essas irregularidades.

 

Pelas palavras do próprio Governador, as UPP’s iriam permitir a livre campanha eleitoral nas áreas que antes eram dominadas pelo tráfico, mas o que vemos no Morro da Providência não condiz com as palavras do Governador. Os acessos ao morro (Ladeira do Livramento, Rua do Monte, Rua Souza Bandeira, Rua Major Saião) estão com seus postes tomados por galhardetes, em um claro desrespeito à lei eleitoral e, numa atitude que contribui para sujar ainda mais a cidade.

 

Ninguém, nem Governador, nem Presidente, tem o direito de se colocar acima da lei. A propaganda eleitoral irregular não apenas é um desrespeito à norma eleitoral, mas consiste também em um desrespeito ao eleitor e à própria cidade, que fica emporcalhada sem que os candidatos se importem com isso. É preciso dar um basta na propaganda eleitoral irregular! Nossos políticos têm que respeitar a lei e o eleitor. Para o Rio de Janeiro continuar lindo, nossos políticos têm que parar de sujar a cidade com seus materiais de campanha.


E agora, Cabral?

Quem assiste ao programa eleitoral do Governador Sérgio Cabral imagina que o Rio de Janeiro está a caminho da perfeição. O Governador mostra as UPAs como a solução para o problema da saúde e, apresenta as UPPs como a solução para a questão da segurança pública, mas sabemos que não é bem assim. Em algumas UPAs faltam médicos, o que as torna limitadas e, as UPPs não resolve em nada o problema da segurança, apenas desloca o crime organizado de uma região para a outra, isso quando não o mantém no mesmo lugar apenas de modo mais discreto, como aconteceu na Cidade de Deus onde reportagem do Fantástico mostrou que a venda de drogas já acontece livremente.

 

A invasão do Hotel Intercontinental, no último sábado, por um bando pertencente à facção Amigos dos Amigos (ADA) serve para que a parcela da população que ainda acreditava no “Rio imaginário de Cabral” possa prestar mais atenção aos fatos e enxergar que o modelo de polícia pacificadora do governador Sérgio Cabral, de modelo não tem nada. Quando as UPPs são instaladas, para onde vão os bandidos? Presos? Não, o número de prisões em ações de instalação de UPPs é mínimo, quase nulo. O índice de violência no entorno das áreas nas quais as UPPs foram instaladas aumentou consideravelmente. Os assaltos ficam mais freqüentes e, no fim das contas as UPPs não passam de um excelente projeto de Marketing que vendeu a ilusão de uma pacificação em uma cidade onde o tráfico ainda é mais forte que a presença do Estado.

 

Alguns defensores do governo Cabral vão tentar alegar que a região onde o correu o ataque ao Hotel Intercontinental ainda não foi pacificada, mas nós devolvemos a pergunta indagando para onde vão os criminosos quando uma comunidade sofre a tal pacificação? Eles se arrependem de seus crimes e decidem levar uma vida honesta só porque a polícia passou a ocupar a comunidade? Não! Nós mesmos afirmamos que não! Os índices de violência do Rio de Janeiro não diminuíram por conta dessa política do Governo Sérgio Cabral e, vamos além, o tráfico continua forte nas comunidades pois após algum tempo de repressão, ele é liberado aos poucos e, somente a presença do homem armado nas ruas da comunidade é eliminada.

 

A lógica das Unidades de Polícia Pacificadora, tal qual elas estão instaladas fazem com que essa política de segurança pública possa estar perigosamente caminhando para uma espécie de pacto com os donos do morro, um acordo onde ninguém atrapalhe ninguém, como a reportagem do Fantástico denunciou com imagens da realidade da comunidade chamada Cidade de Deus: os bandidos deixam a polícia fazer o seu trabalho, impedindo os pequenos crimes dos pés-de-chinelo, e a polícia deixa os “donos do poder local” atuarem livremente no seu ramo de comércio, desde que não haja demonstração ostensiva de armas. E, assim, ficam todos teoricamente pacificados.

 

Com toda essa maquiagem, o governador Cabral anuncia à imprensa ter descoberto a quadratura do círculo e recebe aplausos. Sem essa! Ou ele apresenta quem foi em cana ou apresenta os ex-bandidos regenerados e convertidos às nobres causas da cidadania, ou sabemos que as UPPs em nada resolveram a questão da segurança pública em nosso Estado. E outra coisa, não é só nas comunidades que está presente o crime organizado, essa visão de que o crime está junto das comunidades pobres além de preconceituosa, é burra. Há tempos que o poder do tráfico deixou de ser paralelo para ser transversal à nossa sociedade. Bairros inteiros são controlados por milícias e por traficantes que fazem o que querem, quando querem e como querem. Aliás, o que o Governador Sérgio Cabral tem feito para combater as milícias? O Deputado Marcelo Freixo (PSOL) que luta arduamente contra as mesmas está ameaçado de morte e não se enxerga nenhuma política séria de segurança pública na Zona Oeste da cidade. Será que somente a Zona Sul e a Grande Tijuca merecem atenção do Governador?

 

É importante que a população note que há uma importante diferença entre “pacificar uma comunidade” combatendo o narcotráfico e prendendo seus agentes e “pacificar a comunidade” convidando aqueles patriotas a mudar de métodos sem mudar de ramo de atividade. A polícia pacificadora do Governador Cabral nem policia, nem pacifica, apenas faz com que os traficantes mudem seus métodos e, enquanto se vende a ilusão da comunidade em paz, a violência continua grande na cidade, seja nas áreas teoricamente pacificadas, seja nas sem a dita pacificação. O que houve no sábado no Hotel Intercontinental nos serve de alerta: há muita coisa errada no nosso estado e, sem uma política de segurança pública séria continuaremos com os mesmos problemas de sempre, talvez apenas com uma metodologia diferente.


Entrevista com Alessandro Molon

Alessandro Molon, 38 anos, é candidato a Deputado Federal pelo PT. Em seus dois mandatos como Deputado Estadual na Assembléia Legislativa, presidiu ou foi membro das comissões de Direitos Humanos, Educação, Cultura, Segurança Pública,Orçamento, Trabalho e Juventude. Destacou-se pela firmeza de suas posições, por sua capacidade de enfrentar dificuldades e de resistir a pressões, mesmo quando se encontrava sozinho, como quando foi o único deputado a votar contra a eleição de Jorge Picciani para a presidência da Assembléia Legislativa, em 2005. Molon é advogado, professor de Direito na PUC e mestre em História pela UFF. Foi professor da rede municipal e do Colégio de São Bento. Em 2006 foi escolhido pelo governo francês para participar do programa Personalidade do Amanhã. Em 2009, recebeu a Medalha do Mérito do Ministério Público, um reconhecimento de sua integridade. Nesse mesmo ano, recebeu também a Medalha Dom Helder Câmara, da PUC. Abaixo segue uma pequena entrevista que este Blog fez com o candidato à Deputado Federal Alessandro Molon.


ZÉRO: Após oito anos como Deputado Estadual, o senhor lança sua candidatura para Deputado Federal. Como o senhor avalia os seus  mandatos e, como se sente ao encarar, pela primeira vez, o desafio de uma eleição para a Câmara dos Deputados?

 

Alessandro Molon: Foram 8 anos de luta na ALERJ onde trabalhei pela ética na política e pela transparência do poder público. Em meus dois mandatos presidi ou fui membro das comissões de Direitos Humanos, Educação, Cultura, Segurança Pública, Orçamento, Trabalho e Juventude. Enfrentei dificuldades e resisti a pressões, mesmo quando me encontrava sozinho, como, em 2005, que fui o único a votar contra a eleição de Jorge Picciani para a presidência da ALERJ. Durante esses anos, prestei contas de  meu trabalho todas as semanas, tanto através do site quanto através do contato direto com a população, no Buraco do Lume, onde sempre estive próximo e acessível a todos.

 Se for eleito deputado federal, pretendo continuar cumprindo com meu compromisso, como tenho feito desde o início de minha vida pública: trabalhar por mais e melhor qualidade de vida para o povo do Rio de Janeiro.


ZÉRO: Os números do ENEM refletem os graves problemas pelos quais passa a rede estadual de educação do Rio de Janeiro. O que deve ser feito para mudar o atual quadro?

 

Alessandro Molon: Os péssimos resultados do Estado do Rio no IDEB e no Enem são motivos para uma profunda reflexão sobre a política de educação do Governo Cabral. A atual gestão da Secretaria de Educação está sendo marcada pela falta de políticas de melhoria do ensino e pela execução de projetos educacionais milionários, que não contribuíram para diminuir a dívida do Estado com os alunos da rede pública. O governador, que acusa seus antecessores pela tragédia da educação no Rio, deve investir no profissional de educação e fazer um planejamento para a área conseguir em curto prazo melhorar seus resultados.


A falta de planejamento para a área é um dos maiores problemas do Governo Cabral. O Plano Estadual de Educação, aprovado ano passado na ALERJ, por exemplo, só foi enviado pelo Executivo ao Legislativo depois que o Ministério Público Federal cobrou o cumprimento da Lei Federal 10.712, de 2001. A ação do MP Federal foi tomada a meu pedido, pois denunciei ao órgão o atraso do Governo do Rio em relação ao esforço nacional de diminuir o déficit educacional do país. Estamos quase 10 anos atrasados. O Plano Nacional vai expirar este ano e o Governo Federal já enviou o segundo plano, com vigência de 2011 até 2020, para o Congresso Nacional apreciar. O nosso primeiro plano entrou em vigor este ano.


Todos estes problemas são a razão para o Rio ter amargado o penúltimo lugar no ranking nacional do IDEB, ficando à frente apenas do Piauí, e, agora, ter 99 das 100 escolas piores colocadas no ranking do Enem. Como em 2008, nenhum colégio da rede estadual figurou entre os 100 melhores. O governador Cabral, depois de quase quatro anos de governo, devia se envergonhar de querer responsabilizar os antecessores. E ele, o que fez?


Este governo propagandeia que está comprando equipamentos para os professores, como notebooks, quando não investe na qualificação deste profissional. Além disso, há carência de professores de matérias importantes em sala de aula.


Desde o meu primeiro mandato sou membro efetivo da Comissão de Educação da ALERJ e se for eleito, quero participar, como membro da Câmara dos Deputados em Brasília, do debate que culminará com a aprovação do Plano Nacional de Educação para o decênio 2011-2020 e lutar para que as diretrizes aprovadas pela Conferência Nacional de Educação (CONAE) sejam respeitadas. Posteriormente, pretendo colocar meu mandato a serviço da fiscalização do cumprimento de cada meta estabelecida. Contribuo também para a mobilização em torno do monitoramento da aplicação do Plano Estadual de Educação, meta por meta.


ZÉRO: Em reunião com o Conselho de Segurança da Zona Sul, o Deputado alertou para os riscos da política do Governo do Estado para o Metrô-Rio que, cada vez mais, é alvo de reclamações por parte de seus usuários. O que deve ser feito para que o Metrô volte a ser um  transporte de qualidade para a população carioca?

 

Alessandro Molon: O investimento no Metrô foi feito sem nenhum tipo de planejamento. O governo ignorou o projeto original que previa que a linha 2, vinda da zona norte, passaria pela Praça da Cruz Vermelha e chegaria à Estação Carioca. Em vez disso, a gambiarra inaugurada em dezembro de 2009, a chamada linha 1A, inseriu no mesmo percurso trens da linha 1 e da linha 2, aumentando o intervalo entre as composições, o tempo de viagem e consequentemente a superlotação de passageiros. O que a população talvez não tenha percebido são os planos do governador para piorar ainda mais o serviço. Após inaugurar irresponsavelmente a malfadada Linha 1A, planeja agora prolongar a linha 1 até a Barra da Tijuca. Querem esticar este problema até a Barra. Imaginem como vão ficar os vagões nos horários de pico. Além disso, não fizeram nenhum estudo técnico que comprovasse a viabilidade das obras e do funcionamento dessa nova extensão. E o pior, vão entregar a concessão dessa nova linha para a mesma concessionária, como se prestassem um ótimo serviço. As decisões do Governo só têm beneficiado as empresas de transporte e prejudicado a população. Esta é a hora de nos mobilizarmos e exigirmos respeito ao interesse público e do bem-estar da sociedade. Fizemos uma comunidade no Orkut – “Volta Metrô Rio” – e no Facebook – “Quero meu Metrô de Volta” – para que a população possa se manifestar e fazer denúncias.


ZÉRO: As UPP’s são um dos carros-chefe da campanha de reeleição do Governador Sérgio Cabral Filho, porém, no entorno das mesmas, houve um considerável aumento de assaltos e de atos de violência e, em algumas comunidades onde a mesma foi instalada, mesmo sem a presença de homens armados, o tráfico de drogas já voltou a ser feito com certa liberdade. Como o senhor enxerga que pode ser melhorado o projeto das UPP’s?

 

Alessandro Molon: Apresentei o Projeto de Lei nº 2966/2010, que propõe que as UPPs sejam uma política de estado a ser executada independentemente dos governos. O objetivo da lei é dar estabilidade jurídica ao programa e, assim, garantir a segurança dos moradores, além de assegurar que o Executivo desenvolva programas sociais em paralelo ao combate ao tráfico de drogas.


As UPPs só funcionarão se forem estendidas a todo o estado, senão, acontece este problema do deslocamento da violência para outras áreas. O problema é a limitação de recursos para se fazer isso. Logo, é necessário uma política social para essas regiões ocupadas pelo tráfico de drogas e pelas milícias, ou seja, políticas de geração de emprego e renda, de cultura e lazer, de educação, etc.

 

ZÉRO: Este ano se completa 20 anos do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e da Chacina de Acari, um crime que acabou por prescrever sem solução. O que pode ser feito para que tragédias como a de Acari e da Candelária não apenas não sejam esquecidas, mas também para que não se repitam?

 

Alessandro Molon: O Estatuto foi um grande avanço, mas precisa ser colocado em prática. Uma série de medidas precisam ser realizadas para sua efetivação, entre elas, a oferta de educação infantil pública e de qualidade e a melhora das condições de trabalho dos Conselhos Tutelares. Além disso, esses crimes bárbaros devem ser punidos, por isso, apresentei e conseguimos aprovar na ALERJ, a emenda constitucional que garante a autonomia da perícia do estado em relação à polícia, para que crimes praticados por policiais possam ser investigados sem interferência.


ZÉRO: Mesmo sendo do PT, um partido que apóia a candidatura do Governador Sérgio Cabral, sua atuação foi marcada por uma independência e uma postura extremamente crítica ao mandato do mesmo, sendo um dos grandes fiscalizadores do mesmo. Como que o senhor avalia a gestão de Sérgio Cabral à frente do Governo do Estado do Rio de Janeiro?

 

Alessandro Molon: Em meus dois mandatos, sempre cumpri com o papel de fiscalizador do governo do estado, denunciando qualquer tipo de irregularidade. Reconheço os avanços deste governo, as UPPs são um deles, as UPAs 24 horas, entre outros. Porém, há um problema ético, que acaba refletindo nos serviços que o estado presta. A precariedade com que o metrô e os trêns funcionam é um reflexo de acordos com concessionárias. Quando tentei instalar uma CPI na ALERJ para investigar os transportes ferroviários e a Agetransp, o deputado Picciani, por vontade própria, não a instalou. Outro exemplo foi o decreto de Angra dos Reis, no qual o governador amplia as áreas de construção, que denunciei em outubro, muito antes da tragédia acontecida no reveillon.


ZÉRO: Uma das grandes preocupações da população é como serão gastos os recursos disponíveis para a preparação para a Copa do Mundo 2014 e para os Jogos Olímpicos de 2016. Como fazer para, além de garantir um legado para a população após esses eventos, dar transparência aos gastos públicos para com os mesmos?

 

Alessandro Molon: A população tem que se mobilizar para acompanhar esses investimentos. A fiscalização do povo é a mais eficiente. Esta é uma grande oportunidade que não podemos disperdiçar. O volume de recursos que serão aplicados na nossa cidade e em nosso estado é enorme. Para que seja bem aproveitado, temos que garantir a transparência não só dos gastos, mas dos processos decisórios de como será investido o dinheiro. Ou seja, temos que ter voz para decidir quais projetos queremos. Mas isto só é possível com participação popular. O ideal seria que todos os investimentos fossem disponibilizados na internet. O governo federal tem o Portal da Transparência, os governos do estado e do município também deveriam colocar seus orçamentos em seus sites. Inclusive, apresentei o PL 3614/2006 que obriga o governo do estado a disponibilizar a sua execução orçamentária a qualquer cidadão através da internet. Cabe a nós cobrá-los para que isso aconteça.


ZÉRO: Segundo o TSE houve uma diminuição do número de eleitores jovens. Como o senhor encara esses dados e o que pode ser feito para revertê-lo?

 

Alessandro Molon:  Esses números refletem uma insatisfação generalizada com a política em função dos inúmeros escândalos que acometeram o cenário político nos últimos anos. Acredito que isso não seja só um problema na faixa etária jovem. Se fizessem um pesquisa com adultos e eles tivessem a opção de não votar, muitos não votariam. Para reverter isso, é necessário que a população se conscientize que se afastar da política é pior, pois abre espaço para que a fisiologia avance e candidatos não éticos sejam eleitos. Quanto mais procurarmos nos informar sobre os candidatos, quanto mais participarmos dos mandatos que elegemos, quanto mais votarmos com consciência, constituiremos um quadro político muito melhor do que o que temos hoje. Porém, para que isso aconteça, a educação política deve fazer parte dos currículos escolares. Encontros com políticos devem ser fomentados pelas escolas e universidades. O jovem deve ser colocado em contato com a política sempre que possível. Os meios de comunicação também deveriam fomentar campanhas de conscientização ou abordar esse tema em seus programas.


Não basta só que os políticos tentem melhorar sozinhos a situação, é preciso que a sociedade participe deste processo. Caso seja eleito, lutarei, na Câmara do Deputados, para que a reforma política seja discutida e votada, precisamos dela com urgência.



O Fator Lula

Que a estratégia de campanha de José Serra está dando errado, isso fica nítido a cada pesquisa que é divulgada pelos meios de comunicação, mas queremos aqui analisar um outro fator determinante no decorrer dessa campanha eleitoral: o Fator Lula, que mais uma vez foi menosprezado pelos partidos que compõem a oposição. Lula foi menosprezado em um primeiro momento quando acreditaram que seu governo fracassaria e, foi novamente menosprezado ao acharem que ele não teria uma capacidade tão grande de transferência de voto como vem demonstrando ter. A força de Lula é tão grande que, à exceção da candidatura do PSOL, PSTU e PCB ninguém tem coragem de ousar fazer críticas diretas e mais duras à sua administração e, até mesmo a candidatura mais forte da oposição, a candidatura tucana, busca na imagem de Lula recuperar os votos que tem sido perdidos.

 

Decorridos escassos três dias de propaganda eleitoral, Dilma Rousseff se descolou de Serra. Ela foi a 47%. Ele ostenta 30%. A diferença saltou de oito para 17 pontos. Contabilizados apenas os votos válidos, a candidata oficial de Lula vai a 54%. Significa dizer que, se a eleição fosse hoje, Dilma liquidaria a fatura no primeiro turno e, não há como negar que o Fator Lula tem sido determinante nesse processo mas, como se criou e consolidou esse fator Lula?

 

O primeiro passo para esse fator foi dado durante o segundo mandato. Aquecido pelos índices de popularidade, a figura do presidente atraiu para si legendas como o PMDB, que o bajulavam, fato que ajudou em uma antecipação do processo de sucessão presidencial, levando Dilma à vitrine em 2008. A própria escolha de Dilma, em si foi um fator fundamental, pois ao impor Dilma ao PT, Lula interditou um debate interno que levaria sua legenda à disputa fratricida.

 

Outro passo fundamental dado pelo presidente foi o esvaziamento da candidatura de Ciro Gomes. Lula conseguiu, ao movimentar-se nos bastidores, que seu governo fosse representado na campanha por um único nome e, enquanto no início de 2010, enquanto o tucanato se consumia em dúvidas quanto ao seu candidato, José Serra ou Aécio Neves, Lula cuidava de reproduzir ao redor de Dilma o consórcio partidário que poderá lhe garantir um suporte no Congresso que nem mesmo ele teve, além de garantir a hegemonia do tempo de TV.

 

A priorização do PMBD como aliado também foi fundamental nesse processo. Quando Lula deu prioridade ao PMDB, ele ordenou ao PT que reduzisse a ambição de eleger muitos governadores, deixando claro que o palanque nacional se sobrepunha aos estaduais. Enquanto Serra adiava sua candidatura, retardando a formação dos palanques regionais da oposição, Lula garantiu a aliança do PT com o PMDB e no estágio atual da campanha, Lula conseguiu dar o último ponto no tricô que deu um nó na cabeça da oposição, transformando a emoção da despedida do presidente com popularidade recorde em arma eleitoral. Já verteu lágrimas num ato de 1º de Maio, num comício em Curitiba e numa entrevista de televisão. Virou o paizão que transfere o povo aos cuidados da grande “mãe”. Uma mãe que por muito tempo foi considerada pela oposição como inexpressiva e que agora está a um passo de converter José Serra no mais preparado ex-futuro presidente que o Brasil já teve. A oposição menosprezou a capacidade de Lula mais uma vez e, ao que tudo indica irá pagar muito caro por isso.


Lágrimas de Marianne

Marianne é não é apenas uma mulher, apenas um nome, trata-se de um dos maiores símbolos da França, uma figura alegórica que representa a própria República Francesa. Marianne é uma personificação nacional que encarna valores que a França ajudou a se tornarem universais como, liberdade, igualdade e fraternidade. E é por isso que Marianne aparece em selos, brasões, bandeiras, moedas e cédulas de outros países. No Brasil, por exemplo, Marianne é a efígie nas notas de Real.

 

Para os franceses, essa figura é a representação da mãe Pátria, ao mesmo tempo guerreira e pacífica, independente e protetora. Para os aristocratas contra-revolucionários, o nome Marianne tornou-se pejorativo porque estava associado ao povo, aos pobres e aos libertários que lutaram na Revolução. Com seu barrete frígio, uma espécie de boina vermelha que identificava os revolucionários franceses, a imagem de Marianne está gravada no inconsciente coletivo dos povos como um símbolo de valores que a França exportou para o mundo, mas que hoje, no governo Sarkozy vem sendo esquecidos na própria França, o que faz com que Marianne chore.

 

O governo francês, em mais um ato xenofóbico, expulsou nesta quinta-feira 93 ciganos de origem romena de seu país. Os ciganos foram levados de volta ao sua nação de origem como parte de uma iniciativa do governo de Nicolas Sarkozy classificada como um programa de retorno voluntário, que tem seu caráter voluntário altamente questionável. Um voo fretado pelo governo francês partiu de Lyon levando 79 romenos para Bucareste, ao passo que, um outro voo (dessa vez comercial) mandou outros 14 ciganos para fora da França. E ainda existem planos de outros voos até o fim do mês. Embora o governo afirme que eles estão partindo “voluntariamente”, os ciganos foram levados ao aeroporto por carros de polícia, o que por si só já demonstra que o Estado está usando o seu poder coercitivo na ação. O forte esquema de segurança montado impediu que eles pudessem dar declarações a jornalistas, cerceando os mesmos do seu direito de expressão e levantando ainda mais dúvidas do porquê todo aquele aparato para pessoas que, supostamente, estariam deixando a França de forma voluntária?

 

O Estado Francês afirmou que cada repatriado recebeu 300 euros para deixar o país e 100 euros para cada criança, porém, além do fato de que isso demonstra o esforço do governo em mandar o estrangeiro para fora de suas fronteiras, advogados dos romenos denunciam que aqueles que recusaram a proposta do governo foram levados para centros de detenção e, em alguns casos, acabaram sendo levados para a Romênia sem a ajuda financeira, sendo praticamente expulsos do solo francês, aquele mesmo solo que na Revolução de 1779 teve sangue derramado em nome de ideais como a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade.

 

O fato se torna ainda mais agravante pelo fato de a Romênia se parte integrante da União Européia, o que dá a seus cidadãos direito de circular livremente pelos países do bloco. Uma liberdade que não faz parte da política de Sarkozy que sob a alegação de poder repatriar os ciganos se eles não forem capazes de provar que podem se manter em território francês, aproveitou para associá-los à criminalidade, o que por si só já constitui um ato do mais puro e simples preconceito.

 

Não podemos nos esquecer que o mesmo governo Sarkozy já mostrou seu desrespeito com as outras etnias que vivem em solo francês há pouco tempo atrás, quando proibiu a utilização do véu pelos islâmicos em locais públicos. O uso do véu por parte da população islâmica não é apenas uma questão estética, trata-se de um hábito cultural e, principalmente, de uma questão ligada à religiosidade dos mesmos e, ao proibir o uso do mesmo em locais públicos, o governo Francês está simplesmente limitando o direito de liberdade religiosa. E indo além, pela lei aprovada, se houver infração da mesma, a islâmica em questão terá que se sujeitar a um humilhante curso de cidadania, o que nada mais é do que um processo nefasto de aculturação, fato que os brasileiros conhecem bem em sua história pelas práticas dos Jesuítas com as comunidades indígenas.

 

É lamentável ver uma nação como a França, que tem a sua história a marca de valores tão nobres, assumir uma prática política de ordem xenofóbica, alimentando os preconceitos. Qual será o objetivo de Sarkozy? Uma França de uma só etnia? A França apenas para os Franceses? Onde estão os valores da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade expostos pelas três cores do pavilhão nacional francês? O vermelho que simboliza o povo e a fraternidade, hoje se traveste mais uma vez de vergonha, pois o governo Sarkozy e seu xenofobismo estão manchando a bela história do povo francês. A imagem de Marianne, símbolo personificado dos ideais revolucionários da liberdade, da igualdade e da Fraternidade, não pode conter suas lágrimas diante de tão violento atentado que o governo de Nicolas Sarkozy faz aos Direitos Humanos.


A Nova UPP

Tidas como um dos carros-chefe da campanha de reeleição do governador Sérgio Cabral, as Unidades de Polícia Pacificadora ganharam um ar mais socail a partir desta quinta-feira. Será apresentado hoje o novo modelo de gestão para as favelas pacificadas do Rio, batizado de UPP Social, cuja idéia é a de relacionar a questão da segurança pública à uma questão social, o que na nossa visão é fundamental, uma vez que não consideramos um acerto a presença do Estado nas comunidades apenas com o viés repressor, que era o que vinha acontecendo nas UPP’s até aqui.

 

O novo modelo de gestão prevê a coordenação de programas sociais, culturais, ambientais e de desenvolvimento, numa colaboração entre estado, prefeitura, empresas e ONGs. Esses programas são fundamentais, pois além de levar a presença estatal para o dia a dia da comunidade, afastam a juventude do crime organizado e, podem, efetivamente, mudar a realidade local.

 

Nesta quarta-feira, do secretário de Segurança, José Mariano Beltrame, assinou com o Tribunal de Justiça um convênio para que policiais das UPPs façam cursos de abordagem não violenta e mediação de conflitos, duas atitudes que já era de se esperar da força policial, mas que infelizmente não faziam parte da preparação da mesma. Uma das maiores queixas de moradores de áreas tidas como pacificadas é justamente a arrogância com a qual os policiais vêm tratando e, até mesmo, interferindo na rotina dos moradores, o que além de ser um erro acaba por se configurar na ameaça do surgimento de um novo tipo de coronelismo no Brasil, o que é inaceitável.

 

Segundo Beltrame, há um planejamento para que as UPPs cheguem à Região Metropolitana, mas a princípio a intenção é concluir o eixo no Maciço da Tijuca. O secretário não revelou quando as favelas de Santa Teresa - cujos morros também fazem parte do maciço - serão beneficiadas pelo programa. Ele acrescentou que o Complexo do Alemão, uma das regiões mais perigosas do estado, estará pacificado até 2014. O secretário prevê a necessidade de dois mil policiais para ocupar o conjunto de favelas.

 

Com o surgimento de um viés sócio-cultural anexado ao projeto das UPP’s, não podemos negar que as mesmas (ao menos na teoria) sofrem uma melhora de 100%, mas ainda é pouco. Consideramos que a ocupação territorial do Estado deve ser feita prioritariamente com políticas públicas e não com o aparato policial. Uma outra problemática que envolve as UPP’s se dá no fato de que as áreas no entorno das mesmas não são policiadas devidamente e, com isso, quando as unidades são implementadas uma grande insegurança surge nas áreas vizinhas das mesmas, onde a criminalidade acaba por aumentar consideravelmente.

 

Esperamos que as Novas UPP’s confirmem o que apresentam na teoria: uma presença sócio-cultural do Estado nas comunidades, mas ainda achamos que o projeto tem muito a ser discutido para chegar no modelo ideal. Um dos problemas, o da presença do Estado apenas como aparato repressor, pode parcialmente estar a caminho de uma solução, mas outras limitações como a questão da segurança nas áreas próximas não possui nenhuma previsão de solução.


O Baile Petista

Começou ontem a propaganda eleitoral gratuita em rádio e TV e, se todos esperavam para ver uma reação tucana, o que se mostrou na televisão foi um baile petista. O primeiro programa de televisão de Dilma Rousseff no horário de propaganda eleitoral, na tarde de terça-feira, foi simplesmente perfeito, explorando os pontos fortes e tentando tirar quaisquer dúvidas que possam haver sobre os pontos fracos da candidata que foi apresentada não apenas como uma sombra de Lula, mas como uma mulher que se encontra preparada para dirigir a nação.

 

O marqueteiro João Santana, que é o responsável pelo programa e por todos os passos de Dilma, está de parabéns. Ele soube tratar com uma delicadeza ímpar e de forma inteligente o que adversários poderiam vir a usar contra a candidata. Os temas como a participação de Dilma Rousseff na Ditadura militar e a existência de seu ex-marido, até então oculto, foram abordados com leveza, mostrando o lado familiar de Dilma e, assumindo que a candidata lutou arriscando sua própria vida pela democracia. E mais que isso, no programa da noite, João Santana conseguiu por um ponto final na falsa idéia de que Dilma não teria experiência para o cargo, demonstrando como se desenvolveu sua carreira política e, ainda por cima, lembrando do apagão elétrico do Governo Fernando Henrique Cardoso, que Dilma enfrentou como Secretária de Minas e Energia do Governo Olívio Dutra (RS) e, em seguida, encarando a herança deixada por FHC assumindo o Ministério de Minas e Energia do Governo Lula.

 

A Dilma enérgica, conhecida por tratar auxiliares e colegas de governo com acentuada rudeza, deu lugar a uma Dilma amena, suave, e até capaz de se emocionar ao falar dos pobres. Se o comitê político da campanha tucana buscava a humanização de Serra, quem conseguiu esse fato foi o comando da campanha petista que, apresentou ao povo uma versão açucarada da candidata petista. Santana não abusou do uso de Lula em socorro de Dilma. Pelo contrário, usou a presença do Presidente na medida certa, de modo que a candidata não saiu ofuscada, se consolidando como o centro do programa e assumindo para o eleitor uma identidade própria.

 

A base de uma boa campanha eleitoral na TV é a emoção bem dosada e se isso sobrou no programa petista, faltou no programa de televisão de José Serra (e aqui nem vamos comentar o programa-documentário de Marina Silva que deve ter deixado inúmeros eleitores dormindo em seus sofás). A tentativa de humanização de José Serra não deu certo na sua primeira versão e, ainda expôs limitações da candidatura tucana. O tema mais abordado no programa noturno, mais uma vez foi a saúde e, aos poucos o candidato começa a se tornar um candidato de discurso único, porém, não é por seu lado hipocondríaco que o programa de Serra deu errado. Faltou emoção e, principalmente naturalidade. Serra tem dificuldade em sorrir e, o jingle gravado em uma favela artificial não foi uma boa escolha.

 

Com tantas favelas no Brasil, porque montar uma favela artificial com figurantes? Uma inserção feita com uma visita real do candidato a uma comunidade seria infinitamente mais eficaz e a escolha pela artificialidade nos parece completamente sem sentido. Teria o candidato tucano receio de entrar em comunidades de população pobre? Acreditamos que não, mas essa é uma pergunta que pode ser feita após o comitê de campanha ter optado pela fabricação de uma falsa favela para a gravação de seu programa eleitoral. De tão artificial, o trecho do programa onde aparece a favela artificial poderia ser comparado as chanchadas da Atlântica. Ponto para Dilma, problemas para Serra que, mesmo tentando assumir um viés mais popular de “Zé”, parece longe de reverter o quadro que lhe é muito desfavorável.


A Reação Tucana

A pesquisa do IBOPE publicada pelo Jornal Nacional na noite da última segunda feira encerrou a primeira fase da campanha eleitoral. Nessa primeira fase, além do dia a dia de campanha de cada candidato, houve um debate na Rede Bandeirantes e uma série de entrevistas feitas pelo Jornal Nacional e, o resultado da mesma não foi favorável aos tucanos. Se antes do começo da campanha, José Serra (PSDB) liderava as pesquisas de opinião, na pesquisa do IBOPE que encerrou essa primeira fase de campanha vemos a candidata do PT, Dilma Rousseff sendo apontada como vencedora das eleições já no primeiro turno, o que representa a soma de todos os pesadelos do tucanato paulista. A segunda, e decisiva, parte da campanha eleitoral começa hoje e, sua grande marca são as inserções políticas no rádio e TV e, são nessas inserções que o PSDB deve apostar todas as suas fichas.

 

Os apoiadores da candidatura tucana já estão na ofensiva e, agora chegou a vez dos próprios tucanos assumirem essa posição. O primeiro a partir para o confronto com o PT foi o Democratas, do candidato a vice Índio da Costa, que tentou, em vão, relacionar o PT com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e com o Narcotráfico. Um golpe baixo, mas que não surtiu efeito algum. Em seguida, as organizações Globo através das entrevistas do jornal Nacional (onde a postura de seus âncoras foi claramente ofensiva para com a candidatura petista), do jornal ‘O Globo’ e, mais recentemente da Revista Época, que na nossa opinião chegou ao absurdo de romper o limite do aceitável, iniciaram uma ofensiva contra a candidatura de Dilma Rousseff. Agora, na propaganda eleitoral gratuita, será a vez do próprio PSDB elevar o tom, partindo cedo demais para sua última cartada tentando alcançar o segundo turno das eleições.

 

O comando político da campanha tucana produziu artilharia pesada contra a candidatura. Se antes, Marina Silva (candidata pelo PV) classificou os ataques do Democratas de um ‘Plebiscito da Baixaria’, agora a candidata verde deverá ficar estarrecida com o aumento do tom por parte do tucanato. O caso do Mensalão deve ser explorado, bem como um suposto retorno de José Dirceu também tentará ser relacionado à candidatura de Dilma, em uma clara tática de terrorismo eleitoral (a fórmula é a mesma que o PT usa até hoje quando relaciona as privatizações com o candidato tucano). Outra tentativa produzida pelo comitê tucano será a de relacionar a ascensão de Dilma ao retorno dos radicais do PT, o que consideramos totalmente equivocado, já que a Candidatura de Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) demonstra claramente que a esquerda mais radical tem uma nova legenda que a representa.

 

A exploração dos atos de José Serra como Ministro da Saúde (principalmente o programa de prevenção ao HIV e a questão dos genéricos) deve ser explorada juntamente com o questionamento da capacidade administrativa da petista. A coordenação política da campanha de Serra também irá tentar ao máximo humanizar o candidato, uma tarefa que já foi difícil em 2002 e, que parece ainda mais complicada no atual processo eleitoral. Para vencer o menor tempo de televisão que dispões, Serra usará parte das inserções para Deputado em São Paulo e, algumas inserções de candidatos ao Senado (como as do PPS, por exemplo) para pedir votos.

 

Esse conjunto de ações simboliza uma última cartada da campanha de José Serra. Se as pesquisas continuarem a mostrar o crescimento de Dilma mesmo com a intensificação dos ataques, tanto na imprensa como no horário eleitoral, a campanha tucana entrará em xeque, um xeque prematuro que pode ser fatal, uma vez que pela terceira vez seguida o PSDB paulista parece próximo de ser derrotado por um PT nacionalizado. Os correligionários tucanos nos quatro cantos do país não parecem satisfeitos com os rumos da campanha eleitoral, fato que é comprovado pelos problemas internos vividos pela candidatura tucana. A segunda fase da campanha eleitoral começa hoje e, se a tentativa de reação não surtir efeito, a eleição deve mesmo ser decidida no primeiro turno e, a cúpula paulista do PSDB deve começar a sofrer contestações internas mais sérias a partir de então…